Há cerca de uns quatro meses participo de um grupo de discussão na internet, o Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES). As discussões são pautadas por temas sociais, entre eles sobre comunidades quilombolas, grupos indígenas e movimento dos trabalhadores rurais sem-terra (MST).
As discussões, sempre de altíssimo nível, são acompanhadas por quase 400 inscritos de todo território brasileiro. Diariamente, são cerca de 30 e-mails trocados entre os participantes. Mas o dia de hoje, 30 de julho, em particular, merece um destaque. Logo no título, me chama a atenção: “Racismo é um bom negócio”. Matéria publicada no Brasil Wiki, você é o repórter vai tecendo argumentos contra a criação e desenvolvimento de políticas públicas, principalmente para os afrodescendentes. Leia a matéria completa aqui.
No ano em que se comemora 120 anos da abolição da escravatura, me adimiro de ler artigos como este que foi publicado no referido site. E todo o texto é sustentado no argumento que o atual governo é responsável por “práticas racistas odiosas”. E o autor ainda se cita como exemplo, pois, por ser italiano, também tem o direito de receber educação da terra de origem.
Posso não conhecer muito bem o desenvolvimento e a história do povo italiano. As vezes até desconheço detalhes da nossa própria história! E nada contra as pessoas com distintas nacionalidades, sejam chineses, holandeses, africanos, americanos ou espanhóis. O que não posso ignorar é que a questão das desigualdades raciais acentuou-se muito nos últimos 20 anos. As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas por um contexto onde o debate era mobilizado pela questão da existência ou não da discriminação racial no Brasil.
Geralmente as pessoas se esquecem que após a Abolição, em 1888, o processo de estímulo à imigração “criou” um cenário no qual a mão-de-obra negra passa a uma condição de força de trabalho excedente para sobreviver, em grande parte, de pequenos serviços ou da agricultura de subsistência. Livres do grandes senhores feudais, os ex-escravos desenharam o que se vê atualmente nas grandes metrópoles do nosso país: exclusão, desigualdade e pobreza.
É importante ressaltar que no final do século XIX, dois terços da população era formado por descendentes de africanos. E como naquela época entendia-se o embraquecimento como força de desenvolvimento da nação, a imigração era entendida como etapa imprescindível do processo de afirmação da nação e dos nacionais. Essa compreensão permitiu não apenas abrir as portas para o imigrante europeu, mas também determinou a forma como este foi recebido.
Então, me poupe os comentários de que imigrantes (italianos ou portugueses, seja quem for) também têm direito à terra ou educação diferenciada. Os ex-escravos, sim. E os grupos indígenas também. Muito mais do que excluir essa população do próprio território, lhe feriram muito mais que o corpo: atingiram a dignidade.
Aí sim, faço minhas as únicas palavras (sensatas?) do autor do texto publicado no BrasilWiki: “Torço ainda para que Deus seja mesmo brasileiro”.
