Há pouco tempo viajei para a cidade de Oeiras, Piauí, visando aprofundar os conhecimentos sobre o sistema de barraginhas, que está sendo implantado em pequenas propriedades de agricultores familiares no estado do Piauí.
O sistema de barraginhas é uma tecnologia social de baixo custo, e se destina a barrar as enxurradas, evitar a erosão, reter as águas pluviais e alimentar os lençóis de águas subterrâneas. A Fundação Banco do Brasil e a Paróquia de Oeiras já construíram mais de 3 mil barraginhas na região.
Agora, em convênio com o governo do estado, a Sesan/MDS [Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome] está viabilizando a construção de mais 4 mil barraginhas que irão beneficiar mais mil famílias de pequenos agricultores.
A Coordenadoria de Convivência com o Semi-Árido, que representa o Estado do Piauí nesse convênio, além das barraginhas, vai promover a implantação de mil hortas e pomares, para melhorar as condições alimentares e nutricionais de cada família beneficiária, viabilizando a produção de alimentos para o auto-consumo.
Embora o foco da viagem estivesse relacionado com o Projeto de Produção de Alimentos para o Auto-Consumo, a gente sempre conversa com diversas pessoas de diferentes atividades e interesses.
Numa dessas conversas, no saguão do hotel na capital Teresina, enquanto aguardava a hora de viajar para Oeiras, um fazendeiro local se dizia muito insatisfeito com o Programa Bolsa Família. “Ninguém mais quer trabalhar. A gente não acha um peão para arrumar uma cerca, capinar uma roça. Trabalhar pra quê?, se vem tudo de graça. E os padres dão força (para os trabalhadores rurais por meio de atividades sociais)…”.
Em Oeiras, comentei o fato com um jovem técnico do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Piauí (Emater/PI). Aí a opinião foi outra: “Tem muita gente querendo trabalhar, mas não como escravo. O Bolsa Família veio foi para valorizar a mão de obra rural, que era humilhada e aviltada. Tendo a feira garantida, o trabalhador passou a exigir uma remuneração mais justa pelo seu trabalho. Já pensou passar o dia suando debaixo de um sol de 40 graus, para ganhar 10 reais?”
Mais um ponto para o Bolsa Família. Esses “dedos de prosa” nos levam a refletir sobre o efeito do Bolsa Família sobre a valorização da mão de obra rural e a consequente melhoria da distribuição de renda no interior do país.
* Luiz Antonio de Andrade é consultor da Unesco na Coordenação do Programa Cisternas da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan), do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).
Fonte: Intranet do MDS

"Já pensou passar o dia debaixo de um sol de 40 graus para ganhar 10 reais?"